Mulheres de Barro

 



            Na Galeria dos Artistas do Palácio Anchieta, em Vitória, Espírito Santo, a exposição Elas: todas apresentava, em maio de 2026, várias peças em cerâmica de argila branca esmaltada e uma em argila verde, produzidas por Estela Schauffert.

            O conjunto de obras expostas revelam uma linguagem própria de seus trabalhos em cerâmica. Mulheres e suas questões são o tema central. Até mesmo ao adentrar no mundo bibliográfico e de leituras, em que livros folheados são temas para a construção em cerâmica, mas sempre envolvendo a mulher. Talvez a única obra ali presente a destoar do tema é Raízes no Mangue, em que duas figuras masculinas, pai e filho, protagonizam a representação.

            Sobre as obras a artista fez constar:

            “A coleção ‘Medida Punitiva[composta de 4 esculturas, das quais três estão ali expostas. Vide Medida Punitiva II, III e IV] é uma denúncia, um apelo e um pedido de socorro. Cada escultura representa uma figura feminina mutilada – sem mãos, sem pés, sem boca – símbolos da impotência, do silenciamento e da imobilização que muitas mulheres enfrentam diante da violência doméstica e institucional.

            O agressor aparece nas obras representado por uma mão apodrecida que à primeira vista, parece protetiva, acolhedora. Mas sua forma revela o contrário, é esmagadora, invasiva, sufocante. Essa ambiquidade revela a perversidade do sistema que se dizem protetores, mas que chegam tarde – ou nunca chegam.

            O nome da coleção faz referência direta às medidas protetivas que mulheres em situação de risco são obrigadas a solicitar. Medidas que, embora legais, muitas vezes são insuficientes, burocráticas e tardias.

            A arte aqui não está apenas na forma, mas no vazio. No que falta. No que foi arrancado. E, sobretudo, no que pulsa por dentro de cada figura a dor, a resistência, a memória. Quando uma mulher enfrenta a violência, ela é arrancada de si mesma. O mundo que conhecia se desfaz, e muitas vezes, ela precisa se se quebrar – não por fraqueza, mas porque é nesse relacionamento que começa a busca por algo novo. A reconstrução é limpa nem rápida. É falta com pedaços, com marcas, com memórias que insistem em permanecer.

            Mas é também nesse processo que ela descobre uma força que talvez nem soubesse que existia. Uma força que não apaga o que aconteceu, mas que transforma dor em coragem, medo em movimento, silêncio em voz. Ela se refaz. Não como antes, mas como alguém que carrega cicatrizes que contam histórias de sobrevivência. E essas histórias, embora dolorosas, são também testemunhos de resistência.

            Mãe e Filho traz o olhar sereno e sublime trocado por almas de dois seres eternamente entrelaçados, mãe e filho. “Mãe e Filho” possuem uma conexão forte e única representada na obra pelo olhar de um para o outro, olhar que perpassa a energia da vida entre os dois. E é essa ligação inabalável e impenetrável que molda um dentro do outro para sempre. [obra em argila verde pela técnica pedra, desenvolvida pela artista].

            Autoexame, como o nome da obra já diz, retrata a mulher em seu momento íntimo de cuidado pessoal, de autoconhecimento, mostrando o quanto se ama e o quanto preza e deve prezar pelo seu próprio bem-estar e saúde. Um alerta, um pedido a todas nós que passaram ou passarão por provas duras e estiveram firmes, guerreando com toda fortaleza que é ser mulher.

            A respeito da coleção Não se trata de uma mulher que lê. Trata-se de uma mulher que se constrói em leitura”, a autora intitula cada obra e esclarece:

            Frua-me e me faça viver é o convite que o livro faz, desejando ser lido para ganhar vida. A postura da mulher revela que ela está embebida pelas palavras como sob efeito de uma experiência profunda, ressaltando o poder duradouro das ideias que penetram em seu imo. É a materialização do fato de que um bom livro nos atravessa e não termina na última página.

            Mergulho no não fim. Obra que se opõe à pobreza cultural e a leituras rasas. A fusão total entre leitor e livro critica a passividade e o imediatismo da sociedade contemporânea, que tem buscado informação rápida ao invés de imergir no conhecimento profundo. A obra redefine o conceito de leitura, elevando-a a um ato de entrega total, um compromisso genuíno com o texto.

            Alfarrábio humano. Um livro acontece quando é aberto e lido, e quem o lê passa, mesmo que não perceba, a ter esse livro em si. A obra aborda a conexão visceral e sanguínea entre leitor e livro. O alfarrábio, muitas vezes editado, manuseado, desgastado, nos faz refletir sobre nossas lutas, vulnerabilidades, experiências adquiridas que conferem valor à vivência de leitura e à própria vida.

            E um pouco fora da temática Mulher, a autora expõe Raízes no Mangue:

            Para os bravos catadores de caranguejo, essa singela homenagem. Um pai, já enraizado pelos anos, recebe o filho para ensinar-lhe seu ofício. Ambos erguem a mão aos céus agradecendo e apresentando seu “pão”, o caranguejo. A cor mostra a fusão entre catadores e o mangue; ambiente e homem são um e desta forma, coexistem e dependem um do outro.

            Sobre a artista

            Nascida no Rio de Janeiro em 1969, Estela Schauffert cresceu em meio ao dinamismo cultural da metrópole, onde cores, ritmos e narrativas urbanas moldaram seu olhar sensível. Mais tarde, em Florianópolis, encontrou o terreno ideal para aprofundar sua formação, graduando-se em Língua Portuguesa e Literaturas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ampliando seus estudos em uma pós-graduação voltada às possibilidades da linguagem.

Seu percurso nas artes visuais começou na ilustração de livros infantis, campo no qual desenvolveu um traço singular, capaz de captar o encanto e o mistério da infância. A sensibilidade para traduzir emoções em imagens logo se estendeu à modelagem, abrindo caminho para novas experimentações.

            Movida pela inquietação criativa, Estela encontrou na cerâmica um meio expressivo que dialoga com sua relação intuitiva com a matéria. O barro, com sua força ancestral, tornou-se parte essencial de seu processo artístico.

            Dessa imersão nasceu a coleção “Ela: Todas”, composta por figuras femininas modeladas em cerâmica e elementos naturais, nas quais a artista explora narrativas, gestos e afetos que atravessam o universo feminino.

Mergulho no Não Fim

Raízes no Mangue

Medida Punitiva


Autoexame

Alfarrábio Humano


Mãe e Filho

Frua-me



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