Os primeiros brasileiros

Em 3 de outubro de 2019, teve início no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, a exposição "Os Primeiros Brasileiros" sob curadoria de João Pacheco de Oliveira. A exposição trata dos indígenas da costa nordestina brasileira. Estes indígenas fazem jus ao título de primeiros brasileiros, não só por serem os habitantes da terra à época das descobertas, mas também por etimologicamente a designação "brasileiros" se referir às pessoas que trabalhavam na extração do pau brasil e por consequência a primeira atividade econômica entre esses brasileiros e os europeus.
A exposição "propõe ao visitante um passeio pela história do Brasil, assinalando as diferentes formas pelas quais os indígenas do nordeste foram vistos e incorporados ao processo de construção nacional". A respeito, é interessante observar que essa visão popular do indígena já causa estranheza desde o cartaz da exposição na fachado do imponente edifício histórico. O cartaz traz o retrato de um brasileiro de bigode com seu cocar. O choque advém da noção basilar de que os índios brasileiros são imberbes e, portanto, o bigode destoa da figura. Entretanto, é lógico pensar que, nessa faixa costeira de densa população, a mesclagem típica do brasileiro e do português resulta em um novo povo que pode manter características indígenas originais, mas também europeias.





O trabalho de curadoria, além de apresentar amostra de itens típicos, dos primeiros tempos e do atual, traz, ainda, informações interessantes:
Tribos extintas – Várias tribos desses primeiros brasileiros, hoje, estão extintas, a exemplo dos Aimoré, que ocupavam a Bahia e Minas Gerais, e os Boimé, Romari e Tupiná, de Sergipe, entre outros.
Fulni-ô – Os fulni-ô, “são o único grupo indígena do Nordeste que mantém sua língua materna: o Yathê. Tem como elementos constitutivos de sua identidade o segredo em relação às suas práticas rituais e a reclusão de 3 meses durante o ano no espaço sagrado denominado Ouricuri.
Habitavam as margens do Rio Ipanema e eram conhecidos pelas autoridades do século XVIII como Carijó o Carnijó. Em 1832, por solicitação de brancos, concederam 80 hectares de suas terras para a construção da capela de Nossa Senhora da Conceição. Foi isso que deu origem ao núcleo urbano da cidade de Águas Belas. Em 1861, o governo imperial declarou extinto o antigo aldeamento do Ipanema, dividindo-o em lotes individuais, distribuídos tanto aos não índios quanto aos descendentes dos Carijó.
No Brasil República, os Fulni-ô acumularam apoio político suficiente para serem reconhecidos pela agência estatal específica. A construção de alianças com intelectuais e missionários e as relações ritualísticas com índios de diferentes etnias da região, colaboraram muito para a emergência étnico-indígena do Nordeste contemporâneo.
Marcados por um forte sentimento de religiosidade católica relacionado à rememoração dos seus saberes tradicionais indígenas, são praticantes do Ouricuri e têm ao mesmo tempo Nossa Senhora da Conceição como padroeira da Aldeia.

Ouricuri denomina tanto ritual sagrado Fulni-ô quanto o local que fica na mata às 6 km da Aldeia Sede, localizada no núcleo urbano de Águas Belas. Ficam reclusos neste local 3 meses durante o ano e é terminantemente proibido o acesso a não-índios.



Manto TupinambáO Manto Tupinambá tecido com penas vermelhas de guará, esta é uma das mais belas, raras e valiosas peças da cultura material dos povos indígenas do Brasil. Era utilizado por pajés durante alguns rituais, como se pode ver imagem colorida De Bry. Nos séculos XVI e XVII, no início da colonização, foram levados por viajantes europeus e ofertados a monarcas e famílias nobres. Deles hoje existem apenas 5 exemplares no mundo, nenhum deles no Brasil.” Há exemplares no National Museet (Museu Nacional), em Copenhagen, Dinamarca.
“Por meio de uma marcha os Tupinambás atuais relembram a cada ano a morte de Marcelino, um líder de grande prestígio, perseguido, preso e assassinado em 1937.
Para estas marchas os Tupinambás, contemporâneos constroem réplicas dos antigos mantos Tupinambá, expressando nessas peças a vitalidade e complexidade de sua cultura e reafirmando também a força de seu projeto coletivo de futuro."

A exposição atinge o seu desiderato e convoca a compreensão diacrônica de importante integrante do povo brasileiro.

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