As Quatro Impossibilidade de Kafka
As Quatro Impossibilidades de Kafka
por Ana Rocha (1)
Em 3, 17 e 24 de junho de 2024, o Âmbito Cultural, do El Corte Inglês, em Lisboa, promoveu o curso As Quatro Impossibilidade de Kafka, ministrado por Ana Rocha.
Ementa publicada na Magazine Cultural nº20, de abril/julho 2024: "Kafka morreu há 100 anos, a 3 de junho de 1924, a um mês do seu 41º aniversário. Escreveu a sua obra em língua alemã e, numa carta a Max Brod, expôs este quarteto de impossibilidades: a impossibilidade de não escrever; a impossibilidade de escrever em alemão; a impossibilidade de escrever de outro modo e, por fim, a impossibilidade de escrever. Ainda que Kafka fosse um génio, nunca se deixou afetar pela "mania do génio" que grassava no meio intelectual do império austro-húngaro, conforme expôs Hannah Arendt. Nunca viu a sua obra receber o acolhimento que merecia, mas hoje homenageamo-lo celebramo-lo, com o reconhecimento devido".
Do curso, apresentamos nossos apontamentos:
I - Felice Bauer e O Processo
Faz hoje (3 de junho de 2024) 100 anos que Kafka faleceu (3 de junho de 1924) com 40 anos de idade. Hermann Kafka - pai de Kafka - chamava-o de "parasita". Kafka trabalhava na Seguradora Generale, em Praga, e só escrevia após o trabalho. Max Brod era amigo bastante próximo de Kafka e foi responsável pela possibilidade de hoje lermos Kafka. As impossibilidades referidas neste curso e destacadas no título estão arroladas por Kafka numa carta a Max Brod. De 1912 a 1917, Kafka namorou Felice Bauer. O Processo é uma obra de 1914, portanto uma obra escrita à época da eclosão da I Grande Guerra. Kafka havia pedido para Max queimar sua obra, mas este resolveu conservá-la e levou-a para a Palestina, quando fugiu dos nazistas em 1939. Max Brod é o primeiro biógrafo de Kafka. A herança desses manuscritos é confusa. Com a morte de Max, o material foi para sua secretária. Com a morte da secretária, os manuscritos foram herdados por duas filhas desta que os vendeu na Suíça.
Sobre as impossibilidades, Kafka explica, em carta, a Max: 1) sobre a impossibilidade de não escrever, esclarece que escrevia em casa após o trabalho na seguradora, com a porta de seu quarto aberta sujeito a toda a confusão doméstica das irmãs, dos pais, dos empregados etc.; 2) sobre a impossibilidade de escrever em alemão, Kafka esclarece que insistia em escrever em alemão, embora fosse dominante, em Praga, a língua nacionalista tcheca; 3) Sobre a impossibilidade de escrever deste modo, esclarece que é praticamente a soma dos dois motivos anteriores; e 4) sobre a possibilidade de escrever, kafka questiona como conseguiu escrever assim ou como deixar de escrever?
O Processo reflete o seu trabalho na seguradora em que tinha que dar parecer sobre os sinistros. Suas obras estão inconclusas, fato que permite ao leitor dar variadas interpretações. Milan Kundera e Hannah Arendt se debruçaram sobre a obra de Kafka. Max Brod é quem a ordenou e organizou os capítulos, e chegou a escrever a "conclusão " ao O Castelo.
Em 1914, Kafka escreveu O Processo, A metamorfose, e Na Colônia Penal. Em seu texto, Kafka usa muito o léxico processual, que refletia sua formação jurídica e seu trabalho cotidiano. As personagens kafkianas são sempre torturadas pelas engrenagens da burocracia.
A língua tcheca se tornava cada vez mais dominante em Praga e, portanto, a língua alemã de Kafka, por sua vez, se tornava uma língua des-territorializada.
Observa-se em O Processo, a personagem Fraulien Burstner - a senhoria do protagonista. Note que esta personagem tem as mesmas iniciais FB de sua namorada Felice Bauer (1887-1960). Felice Bauer recebeu 600 cartas de Kafka pelos 5 anos de namoro. Kafka tinha uma relação estranha, por exemplo ao descrever os cabelos de sua amada alega que "os cabelos loiros de Felice são insípidos". Num primeiro rompimento de namoro, em 1914, Felice fez um tribunal ou um julgamento familiar, no qual Kafka ficou calado por todo tempo. Deduz-se que era é a motivação de Kafka escrever O Processo.
II - Milena Jesenská e as Cartas
As cartas aqui referidas são as escritas por Kafka para Milena.
Nesta parte do curso, a palestrante tem por objetivo tratar de dois temas: 1-as cartas; e 2-o testamento de Kafka à Max Bros.
Kafka não foi apenas contista, mas tem também obra epistolar e diários.
Sobre as cartas, Kafka afirmou: "as cartas enganaram-me sempre. Não as cartas dos outros, mas as minhas próprias cartas". As cartas mais parecem um monólogo de Kafka com ele mesmo. Em 1920, Kafka inicia as cartas, sendo a primeira escrita em Merano (atualmente na Itália). As cartas revelam as artimanhas de Kafka. Suas cartas (todas) são bastante extensas com 20-30 páginas. Isto revela uma necessidade de não ser efêmero.
Kafka escreveu cerca de 20.000 cartas. Ele se revela manipulador no que escreve. Avança e retrocede, mas não é mentiroso quanto ao que escreve. Enviava cartas, também, para não serem lidas! Ao menos assim se expressava!
A tuberculose fechou a glote de Kafka e por isso morreu de fome e de sede, além da derradeira injeção letal de morfina aplicada pelo médico Robert Klopstock. A saúde de Kafka não o permitiu engajar como combatente na I Grande Guerra; então coube-lhe trabalhar em dobro na seguradora por substituir a falta de outros que partiram para a guerra.
Kafka viveu em uma bolha, pois, em Praga, escrevia em alemão. Isto isolava-o. O uso da língua nacional tcheca era incentivado, mas Kafka não se submetia. Por isso, suas personagens sempre são martirizadas.
Milena (1896-1944) foi a primeira tradutora de Kafka do alemão para o tcheco. Milena era uma jovem tcheca, muito culta, dedicada às artes. Era 13 anos mais nova que Kafka. Milena esteve 9 meses internada em hospital psiquiátrico para tratar sua rebeldia. Casou-se com Ernest Pollak, aos 21 anos. Ernest é quem apresentou Milena a Kafka, no Café Arco. Parece que havia um compartilhamento da companhia de Milena entre os dois. A palestrante usou o termo "menage à trois".
Kafka queria que Milena se divorciasse para casar com ele. Kafka se relacionou intimamente com Milena em duas ocasiões: uma em Gmünd e outra em Viena. Sobre o encontro em Gmünd, Kafka diz que Milena é "uma coluna de fogo". O segundo encontro foi um desastre de Kafka.
Milena viciou-se em morfina e outras drogas. Tornou-se ativista comunista. Desquitou-se e casou com um terceiro. Teve uma filha com este, que mais tarde a abandonou e partiu para a URSS. Milena foi presa e enviada para o Campo de Concentração Ravensbrück. Além da perseguição nazista, parece que sua prisão se deu por perseguição stalinista. Morreu nesse Campo de Concentração, 20 anos após a morte de Kafka.
O Testamento de Kafka. A herança que temos de Kafka envolve dois testamentos traídos. "Testamentos Traídos" é o título de romance de Milan Kundera, que ensaia a respeito. Um é o testamento de Kafka e o outro de Max Bros. Kafka havia pedido para Max queimar toda sua obra. Este, entretanto, guardou a obra (primeira traição de testamento) e levou consigo para Palestina, quando fugiu dos nazistas.
O testamento de Max Bros. Com sua morte os manuscritos foram deixados para Ester Hofer, sua secretária, e depois herdados pelas duas filhas desta. Os manuscritos foram vendidos aos poucos (segunda traição de testamento). Nunca se enumerou quais manuscritos foram resgatados e levados para a Palestina (Israel) no intuito de não atrair interesses e reclamos.
A quem pertencem os manuscritos? A Alemanha, a República Tcheca, Israel e a Áustria reclamam a obra. O manuscrito de "O Processo" está na Biblioteca Marbach (Alemanha) que o adquiriu por milhões de dólares.
III - Dora Dymant e o conto Uma Mulherzinha
Robert Klopstok - médico, judeu-húngaro; praticou medicina em Budapeste, Praga, Berlim e EUA; conseguiu fugir para os EUA antes da chegada dos nazis; aplicou a injeção letal de morfina em Kafka - era amigo de Kafka; conheceram-se em clínica de tratamento da tuberculose, pois Klopstock também a tinha, mas se curou e sobreviveu. Kafka teria-lhe dito: "se não és assassino, mata-me". A época da morte de Kafka, Klopstock teria 21 anos de idade.
A leitura da obra de Kafka realmente muda nossa perspectiva de vida.
A palestrante esclareceu que, nesta terceira e última parte do curso, tratará de dois pontos: 1 - a vida de Kafka com Dora Dymant e 2 - o conto "Uma Mulherzinha" (conto de 8 páginas) e que terá por base a tese de Theodor Adorno.
No período, a Europa está no surrealismo: Dalí, Miró, Picasso, Aragon, Marcel du Champs, René Magritte, Kafka, Bruñel etc.
Dora Dymant, que usou várias grafias para seu sobrenome: Diamant, Dyamant etc. (1898-1952), nasceu na Polônia. Conheceu Kafka quando tinha 21 anos e ele 40. Foi noiva de Kafka e viveu com ele por 6 meses, no mesmo quarto, em Graal-Moritz (1923). O casal tinha poucas posses. Entre si, eles falavam yídiche. O pai de Dora, Herschel Diamant, não autorizou o casamento. Kafka era sionista e ambos desejavam viver na Palestina, abrindo um restaurante, no qual Kafka seria o garçon e Dora a cozinheira.
Dora conheceu Jean-Louis Barroult - teatrólogo francês (1910-1994) que aparece na pintura "O Processo" de Félix Labisse. Barroult encenou "O Processo".
Dora esteve com kafka em seu último período de vida, quando ele morreu, muito franco, com 42 kg.
Dora casou-se posteriormente. Dora e o marido fugiram para Moscou, onde foram tratados como trotskistas (Leon Trotski - rival de Stalim) e foram perseguidos pelo stalinismo. Seu marido, Ludwig Lask - economista - foi condenado a cumprir pena de 8 anos na Sibéria.
Dora guardou 36 cartas de Kafka. Morreu em Londres com 53 anos. Teve uma filha a quem deu o nome de Franzyska Marianne (o nome é uma referência a Franz Kafka).
Sobre o conto Uma Mulherzinha
Kafka tem mais de 85 contos traduzidos para o português.
O alemão usado por Kafka era diferente daquele falado em Viena, Berlim etc. Era um alemão "mortificado", segundo Adorno. As vezes, as frases secas desse alemão afugentam o leitor. Para os tchecos, esse alemão tinha algum humor.
Em "Uma Mulherzinha" , há um ódio sobre o envelhecimento; um conflito entre o velho e o jovem. Talvez uma referência às diferentes idades de Dora e Kafka.
O termo "mulherzinha" refere-se a uma mulher pequena. Kafka, numa escrita despojada, descreve a mulherzinha como via Dora ou Felice Bauer ou Grete Bloch ou Jolie Worizek. Nos seus trabalhos, as figuras femininas parecem servir de obstáculos ou inimigas.
Interpretar Kafka é muito difícil. Há interpretações inesgotáveis. Como diz Walter Benjamin: "eu renuncio a interpretar Kafka".
O conto "Uma Mulherzinha" tem um anti-herói e trata do conflito da mulher pequena com o homem que odeia. A antipatia é hiper-dimencionada no conto.
Renê Magritte tem quadros "Os Amantes" sempre com os rostos tapados a evitar contato entre o casal. Faz pressupor o relacionamento entre Kafka e Dora em razão do estágio avançado da tuberculose.
No conto, a personagem se sente usado por cometer um crime desconhecido e julgado por uma juíza pequena. Note a semelhança com O Processo.
O gênero epistolar, na obra de Kafka, mostra a abolição dos limites da ficção e a realidade.
Kafka fez 40 pranchas de desenhos. Algumas foram publicadas em O Processo.
Há diálogos inconsequentes. Isso é uma marca, um fenômeno kafkiano.
Conclusão
O curso tratou da vida amorosa de Kafka e de parte de sua obra (O Processo; Cartas e Uma Mulherzinha) ao se referir de Felice Bauer, Milena Jesenská e Dora Dymant. São detalhes revelados por uma abordagem singular da obra epistolar kafkiana em que as quatro impossibilidades de Kafka (título do curso) são apenas o mote para lidar sobre o assunto, o escritor, sua obra e seus amores. (S.P.A., Lisboa, 30 de junho de 2024).
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(1) Ana Rocha nasceu em Moçambique, em 1957. É licenciada e mestre em Filosofia. Professora, escritora, repórter musical e curadora do colóquio Diálogos em Marvão. Lançou-se em 1978, na revista Música & Som e colabora, desde 2006, no semanário Expresso. 20 anos, foi jornalista cultural no vespertino A Capital. Na Rádio Renascença foi coautora de A Flauta Mágica e, na Antena 2, de Preto no Branco e Plácidos Domingos. É autora de duas peças de teatro, A origem do mundo e Antero Q. Prepara uma obra sobre Wagner intitulada A Arte da Fuga.
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