O tempo da história
O
TEMPO DA HISTÓRIA
Nesta
Era da Informação rápida, parece que se quer escrever a história prontamente. É
como se fatos ocorridos ontem pudessem determinar e marcar a história do dia
seguinte. Até podem, mas com qual eficiência? A influência é imediata, não há
espaço para pensar e se recompor as ideias, os comportamentos sociais, a vida
enfim? Se ela pode ser imediata, pode também cair no esquecimento, em razão de
uma nova informação, mais fresquinha e envolvente, nas redes sociais. Assim,
fatos recentes podem ou não fazer a História.
João
Guedes em seus programas semanais sobre livros na Televisão de Macau, em março
de 2020, asseverou com razão: passadas umas duas dezenas de anos, para
acadêmicos sérios, é um período demasiado curto para se fazer História. E
acrescentou: o que se faça nesse contexto, por ora, é apenas jornalismo.
Portanto, não é tempo para se fazer História.
Fernanda
Antônia Pacca de Almeida Wright, saudosa historiadora brasileira e muito bem
reconhecida no meio acadêmico anglo-saxão, sempre insistiu que para analisar e
escrever a História era preciso um bom distanciamento, assim um período
inferior a 10 anos, com certeza era impraticável para se fazer história.
Se
mesmo hoje com distanciamento, muitos documentos catalogados e organizados para
se escrever a História ainda vemos obras produzidas ao mero sabor de romances
históricos. Seus autores, comumente jornalistas, de formação, têm facilidade de
publicar verdadeiros romances históricos como se estivessem a rescrever a História.
Não que se queira depreciar os trabalhos de Laurentino Gomes, Rodrigo Vizeu
Klautau de Amorim, Jorge Caldeira, Ruy Castro ou José Rodrigues dos Santos, mas
há muita carga romântica, preconceito e política enraizada nas afirmações e
posições tomadas.
Vale
observar que, no correr dos fatos históricos, jargões, clichés e denominações
vão sendo atribuídos e estabelecidos pelo mero prazer de insinuar vencedores e
perdedores. São exemplos: a expressão política “café com leite”; os
termos “revolução” e “golpe”; e tantos outros. A Primeira
República seria mesmo uma política café com leite? Estaria, mesmo,
Washington Luís quebrando a política do café com leite ao indicar Altino
Arantes para concorrer à sucessão presidencial? Existia a consciência de que
havia uma política café com leite por parte dos presidentes da primeira
república? Ou melhor: existia uma política café com leite, ou isto foi
algo inventado pela propaganda que se instalou no país após a deposição de
Washington Luís? Estava Getúlio Vargas com seus tenentes camaradas, sem
qualquer apoio da população, fazendo uma revolução de 1930 ou um golpe?
Estariam os militares, chamados pelas passeadas populares, promovendo um golpe
ou uma revolução em 1964? As quebras das sucessões governamentais no
Brasil foram golpes ou revoluções? Quais eram os golpes e
quais eram as revoluções?
Muitas
são as perguntas e as respostas são, no mínimo, o dobro delas.
Se até
hoje passados 90 anos, podemos questionar a existência de uma política café
com leite, é muito menos crível que se escreva a História, com seriedade
sobre os últimos anos da vida brasileira.
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