Sobre atos, fatos e fakes: orientação aos leitores de jornais


Nesta "Era da Informação", a importância da busca pela verdade é crucial e tem exigido um trabalho hercúleo dos cidadãos em todo o mundo.
Na capitulação das notícias jornalísticas, é notória a forma de se construir títulos de matérias e induzir entendimentos equivocados acerca delas.
Temos alguns exemplos:
A ONU CONDENA COMEMORAÇÕES
Na primeira página de O Estado de S. Paulo, de 30 de março de 2019, o título da notícia asseverava: “ONU condena comemorações”. Por esse título simples, não resta dúvida que o sujeito da ação, a ONU, é quem condena. Entretanto, na mesma chamada de capa, em um resumo de 4 linhas, tem-se um novo entendimento, eis que esclarece: “Fabián Salvioli, relator da ONU, disse ontem que comemorar o golpe é ‘imoral e inadmissível em uma sociedade baseada no estado de direito’”. Note que por esse esclarecimento, a ONU não é mais o sujeito da ação, mas Fabián Salvioli. Descobrimos que o agente da ação é um relator e não propriamente a ONU. Note ainda que ali ele não usou o verbo “condenar”. Então continuamos na dúvida quem condena: ONU ou Fabián? A chamada de capa direciona o leitor para a matéria na página A8. Lá na coluna intitulada “‘Inadmissível’, diz relator da ONU sobre cerimônias”, lendo a matéria por completo, aprendemos que a declaração é do relator e não da ONU e que ele não condenou propriamente as comemorações/cerimônias acerca do “aniversário do golpe militar de 1964”. Por oportuno, é bom lembrar que a ONU se pronuncia através de Resoluções e Recomendações com respaldo da aprovação pela maioria das nações. Logo, a opinião de um relator do setor de promoção da verdade, justiça, reparação e garantias de não repetição, da ONU, não pode representar a ONU e tão pouco o peso da opinião da maioria das mais de 190 nações unidas naquele Organismo Internacional.
Disto se conclui que é necessário ler a notícia por inteiro e ter conhecimento de competências para poder avaliar a verdade acerca de a “ONU condenar”. Isto é, a chamada de capa conduz o leitor a indubitável erro. Resta saber se a intenção do jornal era proposital ou uma escorregadela do jornalista responsável?
GOVERNO AINDA NÃO APROVOU PROJETO PRÓPRIO NA CÂMARA
Mais uma vez, na primeira página de O Estado de S. Paulo, de 1 de abril de 2019, a manchete principal de capa “Governo ainda não aprovou projeto próprio na câmara” causa estranheza. É que como se sabe o poder executivo, no caso o Governo ali referido, não aprova nada na Câmara. Quem tem competência para aprovar alguma coisa na Câmara são os Deputados Federais, em assembleia ou, em casos especiais, em suas comissões conforme o assunto. Logo, o sujeito da frase intitulada na manchete principal não pode ser “governo”. Naquela oração, o governo deveria estar na passiva, ou seja, melhor seria informar que “Governo ainda não teve nenhum projeto próprio aprovado na Câmara”. A forma originalmente escrita parece querer imputar uma omissão ou não-ação do governo, ou seja, quer imputar um ato negativo ao governo executivo. Aí há de se perguntar: por qual propósito? Pode-se querer justificar que o título usou uma figura de linguagem, tomando o paciente pelo agente. Ora, em um jornal a notícia deve ser direta e não usar sinédoque, metonímia, elipse, ironia, ou qualquer outra figura de linguagem, tão próprias da arte da literatura em especial da ficção e da poética.
Seguindo a leitura da manchete de capa, observa-se de pronto que não é o governo que não aprovou. O que ocorre é que “nenhum dos 16 projetos ...enviados...para o Congresso foi aprovado...” Note que o Governo deixa de ser agente e passa a ser o agente passivo da ação do Congresso. Muda-se, portanto, a assertiva posta no título.
Note que, nesses dois exemplos em dias próximos, o leitor é enganado pelo título da matéria, não só por descaracterizar quem faz a ação, mas também pela falta de competência para quem supostamente fez a ação. A quem interessa essa desinformação? Por que enganar o leitor? Por que fazê-lo buscar o entendimento completo, quando o jornal poderia dá-lo de pronto?
Leitores estejam atentos; leiam as notícias até o fim; não se fiem às ilações dos títulos das matérias e tampouco ao resumo das notícias.
A má construção de títulos torna a notícia em fake news.

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