Protagonismo do Brasil no concerto das nações
Sem
dúvida o Brasil é protagonista no concerto das nações. Desde antes de aparecer
ao mundo “civilizado”, o Brasil já era objeto de delimitação de fronteiras em
um pioneiro tratado internacional moderno: o Tratado de Tordesilhas. Este
tratado já no século XV, delineava quase todas as características fundamentais
dos acordos da espécie como Hugo Grócio, no século seguinte, observou e como
ensina J. Francisco Rezek, em seus trabalhos didáticos, muitos séculos depois.
O Brasil aparece como um reino com direito a voto soberano em 1815, 7 anos
antes da declaração de sua independência, graças ao estatuto atribuído por D.
João, ao elevar o Brasil à Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.
O
Brasil soberano, na vanguarda de seu tempo, participou de muitas conferências memoráveis
e da criação de inúmeras organizações internacionais. É o caso da Conferência
de Paz de Haia em 1907, da Conferência de Paris de 1919, da criação da
Sociedade das Nações, da Organização das Nações Unidas (ONU), entre outras.
Muitas
vezes a continuidade desse protagonismo foi possível graças ao empenho pessoal
de seus agentes no âmbito da diplomacia, como Ruy Barbosa, Barão do Rio Branco,
San Tiago Dantas, Oswaldo Aranha, Saraiva Guerreiro, Roberto de Abreu Sodré,
entre tantos outros. Com certeza, a lição maior vem de Ruy Barbosa, como chefe
da delegação do Brasil, na Conferência de Haia, em 1907, em que seus discursos,
de apreciada oratória, contestaram com habilidade os atos baseados na força e
demonstraram com precisão, no âmbito do Direito Internacional Público, a igualdade
dos Estados Soberanos.
A voz
ativa e igualitária do Brasil conduz seu Itamaraty na labuta em pé de igualdade
em face e ao lado dos poderosos Department of State e Foreign
Department.
O
protagonismo criou tradição e pôs o Brasil em evidência. Por exemplo, para nós
brasileiros sempre é uma honra ter o Presidente do Brasil abrindo, com discurso
inaugural, cada sessão anual da Assembleia Geral da ONU. Um evento que poucos
presidentes brasileiros deixaram de participar.
A
respeito desse suposto privilégio, é bom saber a razão pela qual o Brasil é o
primeiro a discursar. Quase toda a mídia, à época oportuna, insiste em afirmar
que essa prática é uma tradição, sem, entretanto, explicar melhor. Até mesmo
Celso Lafer, membro do Departamento de Direito Internacional da Faculdade de
Direito da Universidade de São Paulo, em artigo (Os discursos do Brasil na
ONU) no Espaço Aberto de O Estado de São Paulo, de 15 de setembro de 2019,
falou da tradição, mas deixou in albis, uma melhor explanação a
respeito.
Parece
que quem melhor soube explicar essa questão é outro membro do referido departamento,
o saudoso Guido Soares, que com maestria e oratória privilegiada angariava
interesse dos alunos para os “causos” da diplomacia e do direito internacional
público com os quais ilustrava suas aulas.
Guido
Soares ensinava que o Brasil é o primeiro a discursar na abertura da sessão
anual da Assembleia Geral da ONU por mera questão alfabética. Isto é, dentre os
primeiros signatários da Declaração das Nações Unidas de 1º de janeiro de 1942
– documento originário e inaugural da entidade internacional que mais tarde se
chamaria ONU – o Brasil figurava como o primeiro da lista em ordem alfabética. Os
Estados Unidos da América, por sua vez, figuravam em um dos últimos lugares.
Entretanto, por ser a nação anfitriã e sede dos trabalhos, era convidada a
discursar logo após a aclamação da abertura da sessão. Acrescente-se ainda que
a presidência das primeiras seções desse organismo internacional coube por anos
seguidos a Osvaldo Aranha, presidente da delegação brasileira. Assim, a cada
encontro anual, o Brasil fazia a abertura dos trabalhos e, em seguida, o
anfitrião fazia o seu discurso, seguindo-se os demais inscritos a falar, representantes
das demais nações signatárias da Declaração, por ordem alfabética, observada
ainda a cronologia de sua adesão e a hierarquia do mandatário de cada país.
Ao
contar esses detalhes, antes que algum aluno perguntasse, Guido Soares já
atalhava: Por que a Argentina não fala primeiro, então? E respondia,
prontamente, à sua própria pergunta: porque o Brasil está nesse organismo
internacional com muita anterioridade à Argentina. O Brasil é pioneiro no
âmbito internacional. E assim punha fim (ou acirrava) às rivalidades com o país
hermano.
Certo
é que os Chefes de Estado presentes ao evento da abertura da sessão têm a prerrogativa
de discursar. Eis porque o Brasil quase sempre se fez representar nesses
eventos pelo seu Chefe de Estado, ou seja, o Presidente da República. Fernando
Henrique Cardoso foi um deles que nunca se furtou de comparecer à abertura,
onde costumava discursar exibindo intelectualidade e fluência em bom francês,
embora parte da mídia o criticasse por pedantismo.
O
suposto privilégio brasileiro na abertura da sessão anual da Assembleia Geral
da ONU é algo que importa e afeta mais ao público brasileiro do que a qualquer
outra nação. Para o mundo, é irrelevante quem abre a sessão. O importante é ter
voz no concerto das nações.
Cada
nação cuida de seu interesse. A respeito, registre-se que, para os
estadunidenses, o que importa é o discurso do seu Presidente ou de seu
representante. Alegam que se ele não é o primeiro a discursar é porque, durante
o discurso do Brasil, os demais membros da ONU ganham tempo para se acomodar
confortavelmente para ouvir o discurso dos Estados Unidos, o mais importante!
Vale
lembrar que não apenas os signatários da Declaração de 1942 discursam. Podem
discursar, na abertura da sessão, os demais integrantes da ONU desde sua
adesão. Assim, é que aparece a Argentina. Assim também os mais jovens membros
da ONU tomam lugar na lista de discursos, podendo ficar para as últimas
posições como o Timor-Leste, o Sudão do Sul etc.
A
explicação de Guido Soares é plausível e verificável. Afinal os signatários da
Declaração das Nações Unidas para a vitória sobre o Hitlerismo foram: em
01.01.1942 - Estados Unidos, Reino Unido,
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, China, Austrália, Bélgica, Canadá,
Costa Rica, Cuba, Checoslováquia,
República Dominicana, El Salvador, Grécia, Guatemala, Haiti, Honduras, Índia, Luxemburgo,
Países Baixos, Nova Zelândia, Nicarágua,
Noruega, Panamá, Polônia, África do Sul, Iugoslávia; em 05.06.1942 - México; em
10.06.1942 - Filipinas; em 28.07.1942 - Etiópia; em 16.01.1943 - Iraque; em
08.02.1943 - Brasil; em 27.04.1943 - Bolívia; em 10.09.1943 - Irã; em 22.12.1943
- Colômbia; em 26.02.1944 - Libéria; em 26.12.1944 - França; em 07.02.1944 - Equador;
em 11.02.1945 - Peru; em 12.02.1945 - Chile e Paraguai; em 16.02.1945 - Venezuela;
em 23.02.1945 - Uruguai; em 24.02.1945 - Turquia; em 27.02.1945 - Egito; em 01.03.1945
- Arábia Saudita, Líbano e Síria.
Observada
a referida lista, estranha-se porque a Austrália, África do Sul, Arábia Saudita
e a Bolívia não se antecipam na ordem alfabética à posição do Brasil. Cada caso
é um caso, eis que há razões a justificar a precedência brasileira.
O caso
australiano: a Austrália, embora seja signatária originária da Declaração de
1942, compõe o Domínio do Império Britânico. Logo o seu Chefe de Estado é a
Rainha Elizabeth II, que discursa, conjuntamente em seu nome, como Reino Unido.
A
Bolívia não antecede o Brasil, em razão da data de sua adesão ser posterior à
brasileira, ou seja: 27 de abril de 1943.
O caso
sul-africano e o saudita: considerando a ordem alfabética em língua inglesa, África
do Sul (South Africa) e Arábia Saudita (Saudi Arabia) não antecedem o nome
Brasil.
Ante
todas essas considerações, pode ser irrelevante a ordem para os discursos na
ONU. O importante é ter voz perante todas as nações, como ensinou
magistralmente Ruy Barbosa. Inegável é o protagonismo do Brasil no concerto das
nações e sempre com relevância positiva em diferentes aspectos, do humanismo ao
meio ambiente.
Comentários
Postar um comentário