Travessia por vários tons de azul

Muitas são as travessias. Todas elas por mais banais que possam se tornar, com certeza, deixam marcas e lembranças, assim como ao ler Grande Serão Veredas a narrativa e descrição da travessia do rio, por Guimarães Rosa, imprime expressões ao leitor além das personagens. Do Brasil ao Estados Unidos da América, por exemplo, muitas são as travessias. Num voo confortável travessamos todo o Cerrado do Planalto Central brasileiro. Em agosto de 2019, em plena época de secura, a estiagem é visível, embora a ação do homem, que a cultiva e rega, cria inusitadas figuras geométricas de muitos tons de verde.


Atravessa-se a Ilha do Bananal – a maior ilha fluvial do mundo – o rio Araguaia, uma região de tanto fetiche que atraiu em diferentes épocas a Coluna Prestes e mais tarde a Guerrilha do Araguaia. Há ali um magnetismo próprio na travessia. Em 2019, a Ilha do Bananal transparecia uma linda pintura marmorizada, predominando o azul e o verde. As exigências das reservas legais nas grandes propriedades rurais criavam, na paisagem, molduras para cada terra cultivada. Molduras retangulares com ângulos retos perfeitamente traçados.


A viagem segue atravessando um mar azul – ou ubi, como dizem os tupis que não distinguem o verde da mata e o azul do céu. Esse mar ubi é a Amazônia. Seus caminhos visíveis eram rios e igarapés. Atravessa-se, então, o rio Amazonas – um senhor rio, senão mar –. Só mata e mata por quilómetros e quilómetros, por horas e horas.

A travessia do mar de mata ubi adentra o Suriname e a Guiana. Muita mata, mas também muita cena de mineração na Guiana. Pequenas vilas à beira dos rios e uma Leiden suntuosa.
Matas, rios, selvas, céus tudo ubi, às vezes, pontilhados de nuvens algodoeiras.

Inicia-se, então, a travessia do azulado Mar do Caribe. A costa da Guiana transparece ser virgem com pequenos pontos de praias e muitos mangues que parecem seguir até a Venezuela. A travessia segue, entretanto, perpendicular para as ilhas do Caribe.
As ilhas do Caribe são muitas. Atravessa-se Trinidad Tobago em sobrevoo. Seguem-se várias ilhas menores. Ali estão as pequenas nações insulares que causam furor, surpresa e estranheza quando suas equipes de atletas são anunciadas a cada ano bissexto na abertura dos Jogos Olímpicos: Santa Lúcia, Martinica, São Cristóvão e Nevis, Ilhas Virgens Britânicas entre outras. Todas com praias exuberantes, margeando águas azuis brilhantes de turquesa.

Atravessa-se a Hispaniola. A ilha repartida entre a pujante República Dominicana e o pobre Haiti. A distinção entre essas nações é visível no sobrevoo de sua travessia: Paragens urbanizadas, fazendas bem tratadas, resorts, campos de golfe e estradas asfaltadas na República Dominicana. Tudo preparado para atrair o turismo. Quando se cruza a fronteira, a visão progressista se encerra e o Haiti exibe matas, campos malcuidados e estradas de areia, de chão ou de barro, como dizem os brasilienses.
Dali a travessia segue por mais ilhas caribenhas. É o arquipélago das Bahamas. Todas com vistas paradisíacas até chegar a Flórida.
Na travessia sobre a Flórida, observa-se alguma semelhança na vegetação. Algo de Pantanal brasileiro existe ali. Áreas de vegetação rala e de baixa estatura em terrenos secos e outros encharcados. Com muitos springs, lagos e lagoas. Seus centros urbanos são bastante espalhados na paisagem. Por sua vez, as plantações rurais se assemelham ao que acima foi descrito a respeito do Cerrado brasileiro.

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