O Capital, de Karl Marx - métodos de leitura
A leitura de O Capital, de Karl Marx, no final dos anos 1970
e início dos 1980, no acaso dos governos militares no Brasil, não era proibida,
mas ainda causava furor. A obra era objeto de análise fundamental do curso de
Ciências Econômicas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A cátedra
havia exigido a leitura de todo o Livro I e capítulos selecionados do Livro II
e recomendara, também, adquirir a obra na Livraria Cortez, no bairro das
Perdizes, praticamente ao lado da faculdade. O tempo, em que o novato tinha
disponível para procurar a referida obra, era mais prático procurar perto do
trabalho, no centro da cidade. No entanto, ao mencionar o nome da obra que
precisava adquirir, os atendentes fugiam do cliente, como o diabo foge da cruz.
O jeito era se apressar e comprar O Capital na livraria recomendada pela
respeitável professora. Sim, ali era fácil consegui-lo, entretanto, o inusitado
era que a obra não estava exposta nas prateleiras, mas guardada no quartinho no
fundo da loja. Veio embrulhada e só nos bancos da sala de aula pode ser aberta e folheada. Eram dois grandes catataus, pesados e de letra miúda. Como sua
leitura era exigida para até o fim do mês, era preciso não perder tempo e
iniciar o estudo imediatamente. Alguém recomendara encapar o livro para não
despertar curiosos a respeito do que se lia. Como não havia tempo para
encapá-lo ou lê-lo no sossego de uma sala de leitura, O Capital foi lido, pela
primeira vez (e tantas outras), no ônibus coletivo que fazia a linha da
faculdade ao subúrbio em que o calouro residia. Ao máximo tentava-se esconder a
capa, mas sem muita preocupação, afinal a cátedra é quem exigira sua leitura e
esta não contava com feroz vontade dos alunos mais novos. Talvez os alunos mais
velhos e envolvidos com questões políticas tivessem mais interesse na obra.
Enfim, a leitura demandada foi feita no ônibus, no metrô, nos bancos públicos
das praças, em casa, na faculdade, em todo lugar em que sobrava tempo
disponível para sua leitura. Em que pese a falta de local adequado, a leitura
foi feita com atenção e precisão, marcando a lápis (quando disponível) ou à
unha (quando impossível outra forma) os trechos que mereciam destaque. O
contexto, na verdade, parecia antiquado e distante da realidade observável da
economia brasileira. Talvez fosse isso que a professora gostaria de ouvir, ou
não.
Lido e alguns trechos relidos (eis que parte deles era quase
incompreensível), lá estava toda a turma com a leitura preparada e pronta para
sorver toda sabedoria que a cátedra podia fornecer. As discussões do texto
começaram. Inicialmente vários alunos falavam, mas aos poucos as ideias foram se
reduzindo a um diálogo entre a professora e uma aluna “revolucionária”. Por
fim, resultou em um monólogo desta aluna expondo teorias, em princípio, incontidas
no texto. O aluno que com muito esforço fizera sua mais real leitura, virava e
revirava os dois volumes a procura do que Vitória falava. Inconformado o
calouro interrompeu a veterana:
- Em que capítulo você está? Onde você leu isso?
- Em Weber – respondeu desavergonhadamente a mocinha.
A resposta, por um momento, calou ao rapaz. Contudo, na
inocência e na vontade de beber da sabedoria, questionou quem era Weber e a que
livro se referia. A professora interveio, sem responder ao aluno. Traçou uma
delongada explanação de teorias econômicas desconhecidas tentando dissuadir
Vitória.
As discussões continuaram agora em diálogo das duas, dando a
entender que voltaram a discussão de Marx.
Inconformado com o que discutiam, o calouro interrompeu mais
uma vez:
- Onde está escrito isso?
- Nas entrelinhas – respondeu Vitória ao pentelho.
Ficou ali a lição de que cada um faz sua leitura. Poucos ou
ninguém lê o que o autor escreveu. Lê-se o que se quer ou fala-se do que se interpretou.
Não conte com o professor para lhe amparar ou mostrar no texto. O que se
discute de O Capital não está escrito nas linhas, mas pelo jeito nas entrelinhas.
É pena!
Ler as entrelinhas é talvez mais um método de leitura!?
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